Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

Twitter: @erickrgzen

  • Meu encontro com Sartre
  • Faltou Luta de Classes
  • Por que os historiadores devem ler Questão de Método?

No dia 15de abril lembramos os 35 anos da morte de Jean-Paul Sartre e, ao ler sobre este evento na imprensa, diversas histórias percorreram a minha memória, pois o filosofo francês foi de fundamental importância na minha formação intelectual. Então, deixe-me contar como foi meu primeiro encontro com Sartre.

  1. Meu encontro com Sartre

Quando eu ingressei na graduação em História na Universidade de São Paulo no fim dos anos 1990, Sartre era “cachorro morto”. A exceção de um curso ou outro, que soavam como curiosidade. Sartre não era mais uma referência! Nem mesmo nos cursos de teoria ou metodologia. Em um seminário especifico sobre dialética, por exemplo, ele não figurava nem mesmo na bibliografia…

Aqueles eram anos curiosos, pois coisas muito sérias tinham que conviver com lixos ideológicos de quinta categoria plantados pelo grande irmão do norte nos nossos debates acadêmicos. Como somos cheios de vira-latas na academia brasileira tinhamos que engolir coisas como O Fim da História (Fukuyama, 1992) ou o Choque de Civilizações (Huntington, 1993). E eu, por azar do ofício, ainda tive que fingir levá-los a sério, pois além da História os dois fizeram estragos também nos cursos e pesquisas de Relações Internacionais, nos quais tive minha experiência docente.

Outros estragos nas análises históricas naquele período eram provocados pela chamada análise do discurso. De uma hora para outra tudo era discurso. Bastava analisá-los, ainda que com uma metodologia frágil, para termos um artigo de História. História e literatura viraram a mesma coisa na mão dos pós-modernos, ao estilo barra pesada como de Hayden White (White, 1995) e mesmo de uma forma mais leve, como Roger Chartier (Chartier, 2009)

Assim, a maior parte dos trabalhos que eu via eram coletas de documentos e análises de sua escrita. Como assim eu via, assim eu procedia… No fundo, essa coisa de ficar “desconstruindo” os “sujeitos”, “desconstruindo” os “discursos” tinha muito Foucault lido como o nariz… Fato também que os mais inteligentes já estavam passando para Bourdieu para sair das encruzilhadas epistemológicas a que os pós-modernos, pós-estruturalistas, pós-crise do marxismo, pós-qualquer coisa, tinham nos levado.

Como jovem estudante eu procedia conforme os demais pesquisadores que eu tinha como referência até então… Procedia até chegar na minha qualificação de mestrado!

Para aqueles que não estão familiarizados com o mundo acadêmico a qualificação é uma banca de avaliação que acontece mais ou menos no meio da pesquisa do mestrado. Composta por dois professores, um “da casa” e outro convidado, ela tem a função de avaliar se você está apto a dar continuidade na pesquisa ou não. Na verdade a qualificação tanto de mestrado como de doutorado são mais assustadoras do que as defesas, pois este é o momento em que você pode ser reprovado. A defesa, apesar do doloroso ritual, tem a função de avaliar a qualidade da sua produções, ela raramente reprova.

Na minha banca estavam dois professores que eu respeitava muito pelos seus trabalhos: Alexandre de Moraes Hecker e István Jancsó. A qualificação foi um massacre! Cometi muitos erros! Naquela época eu estava sem rumo na pesquisa e com um texto muito abaixo do que poderia ter produzido. A sala se encheu de amigos. Eu era o primeiro da turma que qualificava o mestrado, então era como uma cobaia para que os outros descobrissem o que é um massacre em uma qualificação.

De todas as críticas, a mais surprendente foi a do saudoso professor István, com o qual eu já havia trabalhado na graduação. Em meio aos seus comentários mandou a inesquecível crítica:

– Faltou luta de classes!

Me senti ferido de morte! Como um pretenso intelectual marxista que era (ou que gostaria de ser). Para completar a surpresa ele emendou :

Você precisa ler Sartre, Questão de Método.

Tenho certeza que todos que estavam na sala pensaram: “Sartre????”

Surpresa geral !!!

Bom, quando eu cheguei à “república” onde eu morava joguei aquele primeiro texto no lixo (Mentira! Ele voou pela janela rumo ao infinito, mas ninguém precisa saber disso). Comecei a reescrever todo o trabalho. Tomei a decisão de pensar tudo novamente, cada documento, cada palavra, cada linha, cada parágrafo. Do texto original não sobrou NADA! Nem uma única linha.

Com meus amigos solidários de desespero, o Uiran e o Lucas, montamos um grupo de estudo para ler o Questão de Método. Nos reunimos na república, na faculdade e onde é mais adequado para o desenvolvimento do debate intelectual: nos bares. Tínhamos uma obrigação: entender aquela obra do Sartre!

Não estou certo se entendemos plenamente, mas Sartre começou a fazer parte das minhas leituras e reflexões dali até os dias de hoje e estou certo que continuará. O impacto de sua leitura foi profundo na minha visão sobre História.

Com relação à dissertação de mestrado abandonei aquele blá blá blá da “análise do discurso”, “desconstrução dos sujeitos” etc., e passei a ler a documentação com novas perguntas e novas formas de proceder. Deu certo! Fui aprovado com distinção e o trabalho foi publicado pela Edusp/Fapesp com o título: Imigração e Revolução. Lituanos, Poloneses e Russos sob vigilância do Deops. (O livro você acha aqui).

Claro, que no dia da defesa, o Lucas teve a capacidade de entrar sorridente na sala de defesa, quando ela já tinha começado, carregando a frente e mostrando para todos o seu velho livro do Sartre.

Ah tudo bem Lucas isso foi legal!!!

2. Por que os historiadores devem ler Questão de Método?

Não tenho a pretensão de expor em minúcias a obra Questão de Método (Sartre, 1966) de Jean-Paul Sartre (1905-1980). Pretendo apenas fazer algumas observações que passei a considerar na minhas reflexões.

A primeira questão fundamental nesta obra é recuperar a ideia do sujeito, enquanto histórico. Ou melhor, qual era é o lugar do sujeito, daí a importância de se compreender o que alguns denominam de método biográfico de Sartre.

Para entender este aspecto temos que considerar dois conceitos fundamentais: o de projeto e o de mediação. O que Sartre queria dizer com essas duas palavras?

Para Sartre, todos os seres humanos tem uma relação histórica dialética com tempo vivido. Esta experiência forma a vivência do sujeito na sua cotidianidade. A partir da vivência, o sujeito buscar transformar o mundo a sua volta, pois transformar o mundo é uma característica inerente ao ser humano. O próprio viver no mundo já o transforma.

Para mudar o mundo a sua volta os sujeitos precisam elaborar projetos de transformação. Para elaborar projetos é necessário compreender o presente.

Para compreender o presente, os sujeitos elaboram um entendimento, ou melhor, organizam o seu passado para que possam se colocar no mundo, ou para que possam buscar um entendimento de qual é o seu lugar no mundo.

Essa compreensão do mundo também exige uma elaboração do futuro! E aí entendemos a ideia de projeto que significa “se lançar a frente”, “ao futuro”, transcender.

Nessa simplificação, aqui quase grosseira, concluímos que para abrir a possibilidade de entendimento das ações do indivíduo na história temos que buscar compreender como este elaborou o seu passado e o futuro que almejava. Assim, temos uma ideia de como o sujeito pode interpretar o seu presente, reforçá-lo, negá-lo. Entender que sentido ele deu às suas ações cotidianas e a sua vivência. Qual foi a relação entre o que buscava e qual foi o resultado prático de suas ações, enquanto sujeito histórico.

É preciso compreender que Sartre não ignora a subjetividade dos sujeitos, pelo contrário, reforça a necessidade de compreender a relação subjetividade / objetividade ou, se preferir, a subjetividade era um momento necessário da objetividade. Contudo, como filósofo existencialista, entendia que a ação humana somente poderia ser julgada pela sua objetivação e não pela sua intenção. Pela sua realização prática e não pela intenção.

Evidente, que esta compreensão elaborada se dá a partir de determinações do contexto social no qual o sujeito está inserido. Assim, a determinação social e as referências que os indivíduos detêm dão a ele diferentes possibilidades de interpretar e interagir com o mundo. É a partir dos seus possíveis que o indivíduo elabora, interpreta o passado o presente e se projetam ao futuro (transcende).

O homem jamais perde a sua condição de transcender. De elaborar uma compreensão do mundo, pois ele faz a história ao mesmo tempo que é feito por ela, como já colocamos. Ou seja, o sujeito muda o mundo que está a sua volta, por mais alienado que esteja ou por mais que seja submetido a um cotidiano opressor.

Nesta operação analítica, podemos compreender o que Sartre denomina de mediação. Mediações são os instrumentos intelectuais, o conjunto de referências que os indivíduos dispõem para compreender o seu cotidiano. Em um trecho que eu particularmente gosto muito do livro é quando ele afirma que é necessário “passar pelas mediações dos homens concretos e pelos instrumentos ideológicos a que usavam” (Sartre, 1966. p. 39)

No entanto, os seres humanos não vivem isolados. Os projetos não são apenas individuais e, nesse sentido, temos que as expressões individuais se relacionam ao grupo do qual o sujeito faz parte, de forma dialética. Um grupo, para Sartre não é uma forma abstrata, mas a soma das ações concretas dos indivíduos que o formam.

Desta forma dialética, a ação de um indivíduo ou de um grupo, o projeto, é ao mesmo tempo singular e universal. Pois a sua singularidade é uma expressão do universal. Quando, portanto, percebemos os projetos de um grupo, de uma classe, de um indivíduo, estamos diante da relação singular / universal. É desta relação que desvelamos a história e redescobrimos os sujeitos nela.

E…

Essa complexa metodologia de Sartre me abriu uma série de portas interpretativas para compreender os objetos de estudo que havia definido. Deixei de ver os documentos históricos apenas como textos a serem analisados, como uma literatura, e busquei neles a expressão dos sujeitos históricos que os produziam, seus projetos, os instrumentos intelectuais que detinham, sua compreensão do passado, seus possíveis, as suas transcendências e realizações.

Eliminei a “análise do discurso” que deixava os documentos apenas como textos, eliminando os sujeitos históricos. Assim, busquei recuperar uma história realizada por indivíduos concretos que agiam no mundo e não por textos que flutuavam sobre eles e apesar deles.

Uma enorme possibilidade se abria na minha frente, me liberando de algumas amarras e me permitindo compreender de forma mais profunda as dimensões humanas que aqueles documentos históricos expressavam.

Por essa razão, foi impossível não me lembrar do professor István Jancsó e de Sartre com a menção sobre os 35 anos da sua morte. Senti a necessidade de refazer esse meu projeto tão particular, mas que se insere, ou se inseriu, em uma crise geral que se abateu sobre a História e a produção historiográfica em migalhas e sem sujeitos históricos que tanto nos afligiu (e aflige).

Referências

E.R.G. Zen. Imigração e Revolução. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2010.

Francis Fukuyama. O fim da História e o último homem. Rio de Janeiro, Rocco, 1992.

Hayden White. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: Edusp, 1995.

Jean-Paul Sartre. Questão de Método. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1966.

Roger Chartier. A história ou a leitura do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

Samuel P Huntington. “The Clash of Civilization”. Foreign Affairs (Summer, 1993).