Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen 

                                        Twitter: @erickrgzen

  • Sobre o filme e sua produção
  • Quem se importa?
  • Após a Guerra
  • A perversa moral
  • Os homens de bem
  • Mas é nós?

A noite dos generais: um comentário… Mania de ver filme antigo! Não tão antigo, esse é de 1967. Vi quase por acaso! Estava procurando outra coisa na internet, quando me deparei com A Noite dos Generais (The Night of the Generals). Um filme dirigido por Anatole Litvak, conhecidos por filmes como: Crepúsculo Vermelho, Anastacia, a Princesa Esquecida e A Cova da Serpente. No elenco, o filme conta com Omar Sharif, Peter O’Toole e Tom Courtenay.

Não me lembro quando o assisti pela primeira vez, mas sei que me marcou… Não pela ação, elaboração ou mesmo pelo brilhantismo da narrativa. O filme fica longe de ter tudo isso e, se não fossem por algumas cenas psicológicas intensas, e uma das análises mais extraordinárias sobre um criminoso de guerra apresentado no cinema, seria simplesmente enfadonho. Tem uma característica bem típica do cinema da década de 1960: é longo e tem imagens e tomadas lentas…

Inicialmente a história parece simples e estranha. Durante a Segunda Guerra Mundial, um general nazista de elevada patente era também um frequentador de bordeis e assassino de prostitutas. A primeira prostituta foi assassinada em Varsóvia e um investigador alemão foi designado para investigar o brutal assassinato. O criminoso foi transferido para Paris, então sob ocupação nazista, e ali assassina mais uma prostituta. O investigador alemão se junta a um policial francês, simpático à resistência, e toma como missão investigar os crimes contra as prostitutas. Mas afinal, para quê?

1. Quem se importa?

Quem se importa com a morte de prostitutas durante uma Guerra que provoca o assassinato de milhões de outras pessoas? Pior! Prostitutas que aceitavam se deitar com militares de uma força militar de ocupação!

Em meio à investigação e às atividades de repressão e comando das tropas de ocupação, o filme constrói uma sequência de cenas brilhantes, recuperando os aspectos nefastos deste período da história da França ocupada, perdida entre colaboracionistas e a resistência.

Entre as cenas, merece destaque, a que se passa no museu do Louvre. Os nazistas classificavam as obras que não obedeciam a sua estética, uma cópia da arte clássica, como “arte degenerada”, entre estas estavam as obras realizadas por judeus. Durante o regime Nazista foram organizadas várias exposições sobre a chamada arte “degenerada”. Nos países, ocupados pelos nazistas, os museus eram também reorganizados (pilhados em grande parte) e elaboradas galerias de obras “degeneradas”.

O General visita uma dessas galerias dedicadas à “arte degenerada” e encontra a obra de Vicente van Gogh considerado degenerado tanto pela sua estética pós-impressionista como pela sua biografia e seu processo de loucura. Foi justamente diante do quadro Auto Retrato que o General se depara com a própria loucura. E olha a orelha defeituosa representada no quadro. A lenda é que o pintor cortou a sua própria orelha para se parecer com a da representação já que não conseguia pintar uma orelha como a sua. Diante desse símbolo estético da loucura, o General, entra em crise.

Observa o quadro com olhos arregalados! Fixa seu olhar na orelha cortada! Transpira! Seus olhos se tornam olhos de psicopata revelando o que a sobriedade da sua farda e de seus luxos escondia. Colocado diante da representação da loucura, ele encontra a sua própria loucura, e entra em pânico com ela. Perde o seu autocontrole e corre da galeria em um ato de fúria e medo.

2. Após a Guerra

Com o terminar da Segunda Guerra Mundial, o General foi preso e julgado pelos seus crimes de Guerra. Passou alguns anos na prisão e foi liberado.

Ao reencontrar a liberdade passou a ostentar, ainda que mais velho, sua postura militar, seus trejeitos nazistas. Encontra também seguidores do velho nazismo, que mesmo derrotado é capaz de mobilizar os insanos e dementes. Uma centena de seguidores para os quais defendia seu legado e sua ideologia.

Em uma das conferências que proferia, difundindo a sua ideologia de ódio e assassinato, ele, diante dos seus admiradores, encontra o detetive que guardara as provas necessárias para incriminá-lo como assassino comum. O detetive o enfrenta, não mais como general, ou o propagandista de uma ideologia, mas como assassino comum!

Restava-lhe enfrentar a sua verdade e revelá-la a público. Desmascarar sua ideologia e assumir a sua psicopatia. Ninguém segue um psicopata se reconhecer nele um psicopata! Restava-lhe a perpétua humilhação de assassino comum de pessoas que não teriam condições de se defender.

Ali, ele já estava morto. Restava-lhe somente realizar o gesto final…

3. A Perversa Moral 

Movidos por ideologias somos capazes de aceitar a justificativa pela morte de milhões!

No entanto, o assassinato de prostitutas é apenas um ato insano! Psicopata…  Se o assassino de milhões é descoberto como o assassino de prostitutas, a sua psicopatia é revelada. A loucura escondida por trás do discurso contundentes e moralista, do seu uniforme, da sua patente… Se revela e se autodestrói.

O psicopata travestido de autoridade, que quer seguidores não pode se deixar revelar, enquanto psicopata.

Ele tem que usar uma máscara permanente de homem moral, de defensor “dos grandes ideais”, de promessa de um grande futuro glorioso. As suas ações têm que ser percebidas como um sacrifício, como gesto heroico, mas na noite são apenas doentes psicopatas que se escondem na perversão do poder pela sua investidura.

Depois de ver o filme fiquei refletindo sobre os defensores das ditaduras.

4. Os homens de bem!

Saudosistas dos grupos de extermínio!

Da ordem construída sobre a tortura!

Aqueles que argumentam que não se percebia o regime autoritário!

São eles os que seguem, como inocentes úteis, como massa, os psicopatas vestidos de autoridade? São eles os que foram cúmplices e preferem o silêncio complacente para que sua face mais cruel permaneça nas penumbras da história.

Aqui e lá, os heróis da segurança nacional eram eles assassinos de prostitutas, homossexuais e “bandidos” nas noites. Os nossos repressores matavam por dinheiro e torturavam por sadismo. Eram psicopatas úteis de um projeto de poder que nem mesmo tinham capacidade para entender. Saíam dia e noite na busca de fama, dinheiro e aventura… Essa era a noite dos nossos Generais e dos seus cúmplices…

5. Mas e nós?

No nosso eterno medo da liberdade, diante de um futuro incerto e da nossa imaturidade preferimos deixar para que o outro organize esse mundo e nos deixamos ser guiados…

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