Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

Twitter: @erickrgzen

  • Por que aceitar o Euro?
  • O Euro e seus usos políticos
  • A questão Russa
  • A opnião pública

No primeiro dia de janeiro deste ano, a Lituânia adotou o Euro tirando de circulação a então moeda local: a Lita. No entanto, a adoção da moeda europeia está longe de ser uma unanimidade entre a população que demonstrou, até bem pouco antes da adoção, uma das maiores rejeições tanto às medidas econômicas imposta por Bruxelas, como à troca da moeda. Algumas pesquisas no ano passado davam conta que apenas 40% dos lituanos aprovavam a adoção do Euro, mas pouco antes da mudança, novas pesquisas indicavam que 60% a aprovavam… Qual teria sido o motivo dessa repentina mudança de opinião? Quais elementos foram utilizados para o convencimento dos Lituanos para aceitarem uma moeda que alguns países estão próximo a abandonar, como a Grécia, e outros desistiram de entrar?

No meu entender, o convencimento dos lituanos se deu através dos usos políticos do Euro! E não pela realidade objetiva que o mercado europeu oferece e, menos ainda, pela estabilidade da moeda que está se desvalorizando. Dessa forma, estamos diante mais de um ato político do que econômico. Para fundamentar esse argumento proponho um recuo histórico, já que a história da Lituânia não foi amplamente debatida na imprensa nacional (como de resto a Europa Centro Oriental parece ser ignorada, menos em caso de Guerra).

Depois de 45 anos como uma República Soviética, os países Bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) recuperaram sua autonomia e desde o início diversas questões sobe a concretização da independência foram colocadas, entre elas a questão da nacionalidade? (o que fazer com a minoria russa imigradas durante a União Soviética?). Como concretizar as mudanças econômicas (como sair do estatismo soviético para o capitalismo de mercado?) e finalmente a questão da segurança dos recém-formados Estados Nacionais.

Porcentagem de russos no total sobre o total da população.
Porcentagem de russos no total sobre o total da população.

Cada um dos países adotou uma estratégia para resolver essas questões. A Estônia buscou uma imediata integração econômica à União Europeia. Aceitou todos os pontos colocados por Bruxelas e foi o primeiro dos três países a entrar na União Europeia e na zona do Euro. O país teve como estratégia avançar no setor de serviço e de tecnologia e por isso recebeu o apelido de “e-stonia”.

A Letônia, por sua vez, foi o segundo, muito embora apresente um problema bastante sério com relação à minoria russa ali estabelecida. De início a Letônia pretendia se definir de forma étnica e excluir todos os russos e seus decendentes de direito à cidadania. Impôs um sistema de cotas para a naturalização e várias medidas restritivas. No entanto, pressionada pela União Europeia foi adaptando suas leis até que a minoria russa também tivesse direito a ser cidadã da Letônia. No campo econômico a estratégia foi uma adaptação gradual e mais equilibrada para a transição. A Letônia, vale lembrar, é um lugar estratégico para a Rússia, pelo seu porto, pelo transporte de petróleo e gás.

Finalmente a Lituânia.

O país, ao contrário dos outros dois, não teve um problemas com a minoria russa, pois ela é muito pequena e concentrada na sua capital Vilnius, onde também está localizada a minoria de origem polonesa (no entre Guerras, Vilnius, a capital da Lituânia, pertencia à Polônia e sempre foi uma cidade com vários grupos nacionais).

Podemos aqui fazer uma comparação entre os países bálticos. Se a Estônia acelerou o processo de integração econômica com a União Europeia, a Lituânia visou a segurança militar ingressando na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). As bases militares lituanas, como a de aviação de Šiauliai (que tem uma pista de pouso que, pelo seu tamanho, daria para ser usada por um ônibus espacial) passaram a ser utilizadas pela OTAN.

Os lituanos também enviaram contingentes e apoiaram todas as ações militares dos Estados Unidos, como no Iraque e no Afeganistão… Nesse ponto há uma ironia. Durante o período soviético muitos oficiais e soldados Soviéticos eram de origem lituana e lutaram durante a invasão do Afeganistão contra as organizações islâmicas apoiadas pelo ocidente. Décadas depois estavam os oficiais e soldados lituanos no mesmo campo de batalha lutando contra as organizações islâmicas em prol do ocidente. No ano passado, pelo relatório sobre as prisões e torturas praticadas pela CIA, foi confirmado o uso da antiga Escola Equestre como centro de detenção, um local já era utilizado no período soviético, para o mesmo fim…

Ironias à parte, de fato, a Lituânia cuidou mais da sua integração militar do que dos demais aspectos. Não é à toa que a transição econômica foi a mais caótica se comparada à da Estônia e da Letônia. A Lituânia simplesmente abriu o mercado e viu toda a sua indústria sucumbir de uma hora para outra. A produção se concentrou no campo, que sempre foi muito pobre, e no setor de serviços. Resultado, embora os números dos últimos anos até apontem para um equilíbrio e crescimento, a transição econômica deixou milhares de desempregados que buscaram refúgio na Europa Ocidental.

Proporcionalmente a sua população, a Lituânia foi o país com o maior número de emigrados da Europa nos últimos anos. O resultado, junto com a baixa natalidade fez com que a população abaixo de 3 milhões.

Mesmo no campo da energia elétrica, o país não cuidou da sua infraestrutura. Somente no final de 2014 é que pode deixar de depender do fornecimento exclusivo dos russos para seu abastecimento. A solução foi a instalação de um terminal capaz de receber gás enviado por navio da Europa ocidental.

A Lituânia também foi o país que teve maior dificuldade para alcançar as metas da União Europeia e, quando conseguiu, já encontrou uma Europa em crise e com baixo investimento, o que não ajudou na sua evolução econômica. O Euro, portanto, sempre foi apresentado aos lituanos como um sacrifício necessário para a integração ao ocidente.

Neste ponto, creio que já está claro o porque da rejeição do Euro e até mesmo da União Europeia, agora temos que entender como isso foi revertido.

A Lituânia se colocou dentro da União Europeia como uma espécie de porta-voz da ocidentalização, em particular quando assumiu a presidenta (o “A” no final é só para irritar puristas) Dalia Grybauskaitė. A presidenta (de novo!) se aproximou de todos os lideres pró-europeus, como, em particular da Ucrânia, de Yulia Tymoshenko entre outros. A Lituânia se colocou até mesmo como uma ponte para a democratização e aproximação da Bielorússia, irritando o seu ditador Aleksandr Lukashenko (o último dos soviéticos).

Visita de Dalia Grybauskaite a então principal líder oposicionista e pró-ocidente na Ucrânia Yulia Tymoshenko. Na ocasião ela estava detida e em recuperação.
Visita de Dalia Grybauskaite a então principal líder oposicionista e pró-ocidente na Ucrânia Yulia Tymoshenko. Na ocasião ela estava detida e em recuperação.

Protagonista daquele que seria o tratado de Vilnius, a Lituânia, se esforçou para colocar a Ucrânia mais próxima do ocidente, até não ser assinado pelo então presidente ucraniano detonando a crise e os conflitos que persistem na região oriental e da anexação da Crimeia. O resultado foi a ampliação da tensão com relação à Rússia. Essa tensão foi potencializada pelas ações e declarações da presidenta (mais uma vez com “A”) que não perde a oportunidade de chamar a Rússia de Estado terrorista. Na imprensa lituana se alardeou como nunca antes, nem mesmo no pós-União Soviética, uma possível ameaça russa. Em alguns casos beirava ao ridículo, como declarações de que a população russa na Lituânia seria uma ameaça. Lembrando que a população de origem russa é diminuta na Lituânia. Alguns jornais sopraram a notícia de que escolas russas na Lituânia estariam levando seus alunos para treinamentos paramilitares em campos na Rússia. Todo tipo de ameaça, real e imaginária, foi ventiladas e combinadas com as mais bizarras teorias da conspiração.

É fato também que a Rússia não aliviou a situação. Dezenas de sobrevoos de aviões militares sobre o Báltico, sendo diversos interceptados pelos aviões na Lituânia. Treinamento militares com a Bielorussia em regiões próximas da fronteira. Transferencia de aviões para bases Bielorussia e por ai vai…

No mais uma enorme tensão comercial foi provocada. A Rússia decidiu frear a entrada de produtos lituanos com medidas administrativas. Tensões também na fronteira ocidental em Kaliningrado e no mar Báltico com interceptação de navios pesqueiros de bandeira lituana

Enclave russo no Mar Báltico. Kaliningrado

Todas essas tensões permitiram que se elevasse um discurso pro-euro. Ou seja, a adoção da moeda europeia passou a ser vista como uma medida de segurança a mais para a Lituânia. Assumir e ratificar compromissos com Ocidente, também no campo econômico foi explorado como uma garantia de defesa do país contra a Rússia. A estratégia do medo deu certo! Desde o início das tensões com a Rússia a aceitação do Euro chegou aos 60% da população e foi adotado em janeiro sem contestação ou protesto. Ainda colhendo dividendos, a presidenta Dalia Grybauskaitė bateu recordes de popularidade e foi escolhida pela imprensa do país a “lituana do ano” superando a estupenda nadadora Rūta Meilutė, eleita nos dois anos anteriores.

Resta agora saber qual será o resultado para a Lituânia e as consequências econômicas e sociais para adotar uma moeda em um período de crise da mesma e sem grandes perspectivas de saída desta crise. Seja como for, parece que a única celebração pela adoção do Euro se deu no coração financeiro dos Estados Unidos. Em Nova York a bandeira da Lituânia foi colocada em telão da bolsa de valores, alternado com os números da Nasdaq.

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