Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen

@erickrgzen

  • Sobre o liberalismo
  • O nascimento do neoconservadorismo
  • a ação dos irmãos Koch
  • O documentário

Os irmãos Koch (Charles e David) se tornaram protagonistas na política dos Estados Unidos nas últimas décadas, pois estão entre os principais financiadores da “nova direita” ou, se preferirem, da combinação entre neoconservadorismo e neoliberalismo. Dessa mistura sai um caldo com o objetivo de desmontar qualquer forma de proteção social ou de qualquer forma de garantias aos trabalhadores e à liberação (desregulamentação) do mercado.

Para entendermos melhor esses aspectos vamos por partes.

O neoliberalismo é a ideologia que retoma preceitos do liberalismo clássico como a do Estado mínimo. Particularmente forte nos anos 1990, a ideia é que o Estado não interfira na economia. Em outras palavras, qualquer intervenção do Estado na economia, como regulamentação de preços, proteção de mercado, incentivos protecionistas, criariam desequilíbrios na economia e gerariam estagnação e crise. Nos anos 1990, por exemplo no Brasil, essa concepção levou a um programa de privatizações, pois o Estado deveria ter um papel cada vez menor. O neoliberalismo, também estabelece que o Estado não deve “proteger” o trabalhador. Assim, as leis que regulamentam o trabalho, como no Brasil a CLT, deveriam ser removidas, ou como dizem os propagandistas “flexibilizadas”.

A essa agenda neoliberal, a nova direita (nem tão nova assim) somou uma visão neoconservadora de sociedade e passou a combater qualquer forma de direito, como o das minorias, de associação (formação de sindicato), de liberdade de expressão, etc. Neste sentido, o neoconservadorismo retira dos ideais liberais clássicos o direito de liberdade e deixa o liberalismo apenas como uma forma de interpretação da economia. Se aplicadas na sociedade teríamos uma sociedade sem restrições para as grandes corporações e para o mercado financeiro, nenhuma garantia social, mas um Estado que atuaria violentamente contra qualquer forma de contestação a essa ordem.

A nova direita (neoliberalismo + neoconservadorismo) entende que suas ideias são naturais, ou seja, são parte da natureza humana e, portanto, qualquer argumento contra essas é vista como irracional, como ideológico, superstição, ou como socialismo ou comunismo. A palavra “socialismo” para o neoconservador equivale à palavra “diabo” para o cristão fanático… Motivo de medo, repúdio e paranóia. Assim, qualquer coisa que negue ou que seja divergente do seu modo de vida é acusada de ser “comunista”, assim, como um pastor gritaria: “é coisa do capeta”.

2. Os Irmãos Expostos

Essa visão de sociedade se converteu em projeto político, particularmente nos Estados Unidos e para difundí-las tiveram (e ainda têm) um papel propagandista os irmãos Koch.

O documentário apresenta como se formou a fortuna da família Koch e de que forma os dois irmãos a utilizam para estabelecer a sua agenda política, econômica e social. E não só utilizando somente os seus recursos, mas organizando reuniões políticas com outros bilionários para estabelecer uma agenda comum.

Os Koch fizeram fortuna atuando na industria do petróleo, em negócios obscuros com a União Soviética, no período de Stalin. O patriarca dos Koch foi capazes de furarem bloqueios econômicos e fornecer tecnologia para a nascente indústria do petróleo soviética. Ou seja, sem escrúpulos e em nome do lucro se aliaram ao próprio diabo para se tornarem bilionários.

O patriarca dos Koch atuou na política norte-americana, patrocinando entidades e políticos conservadores e, em particular, ligados aos movimentos racistas. Seus filhos não ficam longe da política do pai. A grande diferença dos irmãos para o pai é que eles foram capazes de montar um verdadeiro aparato para realizarem seus propósitos.

Neste sentido, eles atuam em áreas decisivas em especial nos meios de comunicação e na educação. Doam milhões para Universidades e centros de pesquisa para que atuem nela professores e intelectuais que deem legitimidade as suas ideias e as levem para o interior da sala de aula. Essas instituições que engordam seus cofres com o dinheiro dos Koch acabam por colocar seus intelectuais sob estrito controle conservador.

Com o mesmo propósito financiam amplamente grandes institutos de pesquisa, que com esses recursos fazem “pesquisas científicas” (que não são nada científicas) para provar as suas teses. Entre estas instituições, o documentário cita:

  • Cato Institute : 13.6 Milhões

  • Mercatus Center: 9 milhões

  • Heritage Foundation: 3.4milhões

  • Reason Foudation: 2.4 Milhões

3. Cadeia de desinformação.

Estes institutos e pesquisadores têm duas missões: produzir “conhecimento” que prove a veracidade “científica” da ideologia neoconservadora e difundi-las para o público. Assim, o intelectual que deveria pensar a sociedade se vende e se torna um ideólogo, um propagandista da nova direita.

Com esses professores (“intelectuais”) na folha de pagamento e instituições produzindo dados dá-se início à difusão dessas ideias para a sociedade. As primeiras vítimas desses professores são seus estudantes que produzem artigos, teses, orientam trabalhos e fazem carreira sobre uma verdade neoconservadora.  Mas não para por ai…

Esses intelectuais, vendidos, são colocados na grande mídia, também financiada pelos Koch, diretamente ou indiretamente, através da propaganda. (se não seguir a cartilha dos Koch eles cortam a publicidade, simples assim!). Em outros casos, grandes redes de comunicação, sendo o exemplo mais notório a rede FOX, simplesmente compartilham dos ideais da nova direita e trabalham diariamente na difusão dessas ideias.

Pois bem, os intelectuais e os dados dos institutos são levados para o público através da mídia. O que se tem aí, portanto, é uma cadeia de desinformação. Diariamente o público é bombardeado com dados (que já foram manipulados na origem) e pelo discurso dos “cientistas”. Os cientistas são sempre vistos de forma positiva pela sociedade. Somos, desde os anos escolares, acostumados à ideia de associar a ciência à verdade, portanto, um cientista apresenta sempre a verdade! Mas e se o cientista foi comprado?

O que estes intelectuais difundem é principalmente o programa neoliberal e neoconservador, principalmente a necessidade de abandonar a segurança social, elevar a idade para a aposentadoria, privatizar o seguro social, desregulamentar a economia. Além, claro, de atacarem qualquer perspectiva de defesa de grupos sociais, como negros, homossexuais, as mulheres, indígenas e etc.

Outro elemento importante que os Koch sempre colocam sob ataque são os ambientalistas. Donos de empresas extremamente poluentes, como a de petróleo e seus derivados, além de várias áreas da indústria química, os Koch estão entre os maiores patrocinadores da propaganda anti-ambientalistas. O grande discurso é: as leis de proteção ao meio ambiente geram desemprego. O emprego como chantagem e forma de provocar medo é sempre um grande instrumento político.

A forma mais prática  de impor uma agenda é comprando políticos. Assim como no Brasil, lá os políticos também são baratos e financiar campanha é a forma mais pragmática de colocar uma política em prática. No entanto, ao contrário do que ocorre no Brasil, nos Estados Unidos, a democracia abrange muitas áreas e há eleição para diversos cargos, na escola, na polícia, etc. Em todos elas os Koch colocam seus recursos e sua agenda.

Para criar legitimidade, mais do que políticos, nada melhor do que um movimento social mobilizador. Por isso, os Koch estão entre os patrocinadores do movimento Americanos pela Prosperidade (American for Prosperity) que mobiliza, organiza cidadãos comuns para ações e manifestações públicas, para fazer propaganda para determinados políticos e até mesmo para passeatas, ou seja, uma massa cheirosa para aplaudir e vaiar. Todo esse movimento aparece aos olhos públicos como algo espontâneo e popular…

4. E o que nós temos com isso?

Assistir esse documentário poderia ser apenas uma curiosidade sobre os atuais dilemas enfrentados pela democracia norte-americana. No entanto, o pensamento da “nova direita” aqui já chegou e não obstante utiliza os mesmos métodos, propaga as mesmas ideias e, recentemente, passou a utilizar os mesmos dados e os mesmo intelectuais para se legitimarem. Políticos e intelectuais já são parte da folha de pagamento, diretamente ou indiretamente, de uma agenda neoliberal e neoconservadora. Assim, assistir a esse documentário é útil para refletirmos sobre o futuro da nossa sociedade. Especificamente, algo que me preocupa, e muito, sobre qual é o lugar do intelectual (em particular do intelectual professor). Ou melhor,  quais são os limites entre o intelectual e o ideólogo.

5. Sobre o documentário:

Mais do que um documentário o filme se tornou um projeto. Recebe várias edições atualizadas, visando denunciar a ação dos Koch. Seu idealizador é Rober Greenwald, experiente diretor de documentários, com mais de 50 documentários e séries produzidos, já recebeu a nomeação para 25 Emmy (principal prêmio da televisão norte-americana).

O diretor transformou o filme em um projeto que pode ser acompanhado no site: Brave New Films no qual difunde os seus projetos. Ver: www.bravenewfilms.org.

Quem sabe um dia poderemos fazer algo assim por aqui. Se a nova direita utiliza discursos, técnicas e métodos copiados dos norte-americanos, creio que a resistência poderia se inspirar nos americanos também…

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