Por Dr. Erick Reis Godliauskas Zen 

Twitter: @erickrgzen

  • Golpe Militar no Brasil
  • Relação História e Memória

Na semana passada fui convidado por um grupo de alunos para realizar uma palestra sobre o funcionamento dos aparelhos repressivos durante o Regime Militar. O evento tinha como propósito debater os 50 anos do Golpe Militar. (Essa foi a segunda palestra que realizei sobre o tema neste ano).

Naquela semana, por curiosidade, fiquei buscando materiais que pudessem complementar a minha palestra e comecei a observar os eventos que ocorreram e que ainda vão ocorrer neste ano. Busquei por artigos de jornais e etc. Notei que todos traziam a menção ao golpe de 1964.

Não pude deixar de notar, e com alegria, esse fato! O ano de 1964 entrou para a historiografia e para a memória coletiva como golpe! Isso é uma vitória da democracia e algo que deve ser comemorado. Claro que isso não significa que chegamos a uma democracia plena ou que vivemos em pleno Estado democrático de Direito, longe disso! Também não significa que estejamos longe do autoritarismo tanto no micro como nas macro instituições (e se considerarmos o paternalismo uma forma de autoritarismo doce… Aí, estamos bem longe). Seja como for, não estamos em uma ditadura e fazer transposições automáticas com o que foi com o que temos hoje é um equívoco enorme.

Por que é uma vitória chamar o golpe de golpe?

Para entender meu argumento basta comparar a abordagem historiográfica de dois golpes o de 1930 com o de 1964. Ou, a memória coletiva sobre a 1930 com a de 1964.

Com relação a 1930, nós (a historiografia) em grande medida assumimos o discurso dos golpistas como verdade histórica (veja qualquer livro didático) e por isso chamamos aquele golpe de “Revolução”, como bradavam os golpistas. Não raramente utilizamos expressões como “República Velha” ou “Primeira República”, o que acaba por enfatizar a suposta ruptura estabelecida pelo golpe de Estado de 1930.

Se observamos nossa historiografia, sobretudo aquela utilizada no nível escolar,quando há um processo de quebra das regras estabelecidas sempre utilizarmos a expressão revolução e nunca golpe. Em São Paulo, ainda hoje, temos a cara de pau de utilizamos “Revolução Constitucionalista”, para nos referirmos a um evento da elite de cafeicultores paulistas que tinha sido alijada do processo político e queria seus pequenos privilégios de volta.

Em suma, para cada ruptura institucional que o Brasil sofreu adotamos a ideia de “revolução” e assumimos o discurso dos vitoriosos golpistas como verdade histórica. Alguns para evocar uma visão supostamente mais crítica (isso foi uma ironia), tomam o cuidado de colocar Revolução entre aspas. De tal forma, que nos tornamos o país das revoluções entre aspas.

Isso me fez lembrar um episódio curioso ocorrido quando trabalhei em um projeto supostamente progressista (não revelo o nome do projeto para não causar mais confusão). Eu escrevia “golpe de Estado de 1930” e quando o texto voltava da revisão, o revisor (ou a revisora) substituía a minha frase por “Revolução de 1930”. Era como se ele (ou ela) estivessem corrigindo um erro de português, como a falta de um “s” ou de uma crase, ou o nome de uma rua grafado errado. Foi uma luta intensa e perdida, pois no final das contas ficou Revolução de 1930…

Naturalizamos com isso o golpe e tratamos e fazemos de Revolução de 1930 um nome próprio de um evento. Ou seja, não mais refletimos sobre o conteúdo ideológico desta escolha.

Pois bem, com o golpe de 1964 isso não ocorreu. O golpe não será Revolução! Nem mesmo entre aspas! E de todas as quebras institucionais que tivemos ao longo da nossa autoritária república (que começou com um golpe militar) é a primeira vez que um Golpe é chamado de Golpe (consulte um livro didático e ache outro exemplo). E será Golpe tanto na história, quanto na memória coletiva… Ao menos enquanto houver democracia…

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